domingo, 25 de maio de 2008

Uma taquicardia anônima, crônica, mas consciente.
Um desejo.
Um obstáculo que se acende a cada dia.
Isso é sinal de que há muito tempo eu aprendi a caminhar.
Passo, depois outro.
O caminho escurece e a pequena lanterna que eu levo comigo respira fundo para entender-se sol.
O caminho pede mesmo vagalumes.
Mas sigo.
Passo, depois outro.
Sinto como se vivesse agora a narrativa tragicômica de minha mãe me ensinando a andar de bicicleta.
Era medo que eu sentia naquela manhã.
Era como se minha queda fizesse parte dos meus próximos minutos.
Mas era recompensador o abraço e a certeza de ter alguém por perto.

Uma solidão anônima, crônica, mas consciente.
Parte de minhas escolhas
Fruto de meus passos.
Isso é sinal de que há muito tempo eu aprendi a caminhar.
O tempo passa como se não houvessem parâmetros.
Estar longe deveria fazê-lo andar mais devagar.
Mas não.
Inversamente, anda mais ligeiro.
Rápido.
Corre.
Urge.
E eu insisto em dizer não.
Eu insisto em encontrar o que busco, sem buscá-lo, de fato.
Insisto em pedir ao tempo que ande com mais calma.
Com mais cautela, com mais prudência.
Mas não.
Ele insiste em reforçar minhas manias, meus vícios de um tempo largo sem diligências ou burocracias.

Eu pedi ao tempo, mas ele não quis saber.
Não quis saber do que eu vim fazer aqui, do que eu vim buscar em meio aos meus cadernos desenhados, aos meus e-mails que insistem em preencher algum tempo que me sobra.
Me sobra diante de tudo que me falta.
E o que me falta, me falta tanto, que me sobra.
Sobra a falta.
E isso é muito relevante.
É quase imperativo.
Permissões ou possibilidades.
Imposições ou escolhas.

E eu não sei bem o que é que a gente faz com o tempo, quando o tempo é surdo-mudo.
E eu não sei bem o que é que a gente faz com o tempo, quando o tempo é egoísta.

E, de egoísmo eu aprendi um montão.
Aprendi a dormir só para mim.
Só para saber o prazer da pirraça.
Aprendi só pelo prazer da culpa.
E depois, a ressaca do tempo que não volta.
Maldade do tempo que já é ontem, quando mal se sabe que já começou, há muitas horas, o amanhã.
E isso, na verdade, é uma besta análise sobre o que é agora.
Essa confusão toda de tempo tem deixado meus ponteiros tontos de álcool.
Tontos de alegria. Que, espero eu, sejam sólidas de felicidade.
Uma coisa eu sei.
Isso vai durar para sempre.
Em cadernos, em páginas, em palavras e em memórias.
Em fotografias, que são incontáveis.

Mas eu queria mesmo era entender o que passa com o tempo que passa.
Difícil isso de aceitar o passo do tempo.
E os passos do tempo…
Aceitar que já se foi mais da metade.
De um século, de uma vida dividida na metade, de uma viagem que era para ser vida – e acabou sendo mesmo uma viagem.

Eu queria saber como a gente pode fazer para uma viagem se transformar em vida.
Pela primeira vez, talvez, eu esteja vivendo alguma mudança sem sofrer.
E estou buscando os furos do queijo que eu mesmo como.
Engraçado é isso do tempo.
Enche as coisas de marcas e de nódoa, mas, no meu caso, parece é que ele lava.

Eu queria mesmo era saber como é mesmo isso do tempo.
É porque eu resolvi viver.
E vi que não conseguia nada muito além de viajar.
Vai ver que é que meu lugar não está plantado aqui.

Engraçado isso de plantar-se em algum lugar.
A gente tem mania de tirar conclusão das coisas antes mesmo das próprias coisas.
A gente tem mania de querer acelerar o tempo com conlcusões precipitadas sobre as coisas que ainda vão ser coisas amanhã.
E acaba se decepcionando.
Um monte de muitas coisas e nada de muitas outras.
Meu queijo está mesmo cheio de vazios.
E não me importa.

Quero mesmo é seguir viagem.
Apesar de que minha bússola se perdeu em algum lugar desses por onde passei.
E, com ela, caiu em algum beco de poeira meu critério para saber o que pode e o que não pode ser.
Sem saber, sem ser, sem querer saber, querendo ser.
Sei não.

Sei qual é o próximo passo, não.
Só pelo prazer da covardia.
E pelo prazer da culpa.
Nem sei o que pode ser depois de tanto tempo querendo brigar com um monstro muito maior do que eu.
Vai ver que é minha mania de super herói.

O que acontece é que nessa viagem eu quis ser super herói de brinquedo.
E acho que isso também pode.
Era para ser uma vida.
E acabou virando uma viagem.

O que é que a gente faz: sei não; então.
Isso não é uma pergunta, diga-se.
É um afirmação que tem cara de pergunta.
É assim que tem sido meus dias aqui.
Afirmações com cara de pergunta.
E eu não sei o que posso fazer de fato para que isso mude.
Na verdade, nem sei se quero que isso mude.
Ou se posso mudar o que não quero que mude.

Posso então dizer que perdi meu norte, perdi meu sul, perdi meu nascente e meu poente.
Perdi também meu sim e meu não, e perdi também meu infinito.


Perdi para reconstrui-los.
Perdi para preencher as lacunas deixadas pelas perdas.
Perdi para encontrar.

Porque era para ser uma vida.
E acabou sendo mesmo uma viagem.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Eu sou uma cidade em obras.
Leiam-me pelas palavras que ainda não escrevi.
Era como se eu pedisse para a cidade me abraçar.
E, à medida em que eu caminhava sozinho e conhecia um pouco mais de suas ruas, eu conhecesse um pouco mais de minhas ruas também.
Era como se cada esquina tivesse o poder de mudar o sentido das coisas.
Era somente virar, e o caminho já não seria mais o mesmo.
Era como se eu caminhasse rumo à minha casa, pedindo ao Cristo Redentor que viesse me acolher naquela noite.
Aquele Cristo e aquele calor que só o meu país tem o privilégio de ter.
Era como se eu fizesse uma prece.
Era como se eu sentisse fome.
Era como se eu olhasse para a lua e me perguntasse se ela estava cheia assim para todos ou se ela estava tão cheia assim só para mim.
Era como se eu desconfiasse da sombra que me seguia, mesmo sabendo que era eu mesmo que caminhava ao meu lado.
Era como se eu pedisse para que as minhas próprias ruas me mostrassem o caminho certo de volta para casa.

quarta-feira, 21 de maio de 2008



Santo Antônio, 82.
Esse é o endereço da minha casa.
Esse é o endereco do meu blog.

Sigo preferindo as cartas escritas, mas o tempo parece pedir urgência.
Santo Antônio, também é nome de meu pai.
82, também é ano em que nasci.
Pequenas lógicas que completam as razões de ser de cada coisa.
Por falar em razões de ser, tenho percebido, tardiamente ou não, que elas, as razões de ser de cada coisa, estão geralmente escondidas nos cantos mais óbvios.
E, vez ou outra, essa miopia minha de cada dia não me deixa enxergar o quão aparente é aquilo que, pelo menos a princípio, não se vê.
Pois bem, Santo Antônio, 82.
Por mais que não pareça, é sempre bom voltar prá casa.
E é imprescindível ter um endereço.
Mais ainda, ter um abrigo disfarçado de pai, e vice e versa.

Valei-me meu Santo Antônio, valei-me