terça-feira, 24 de junho de 2008

Quando ainda era domingo, eu vi o sol nascer de verdade.
Vi esta cidade querer ser carioca.
Vi essa cidade querer ser dos nossos trópicos.
Vi essa gente querendo ser a nossa gente.
Pela primeira vez desde muitos meses, eu vi o sol nascer sem vergonha de ser sol.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Quando eu era bem pequeno, e até quando eu já não era tão pequeno assim, meu pai costumava gravar em vídeo as nossas cenas cotidianas, os meus passos, as minhas palavras.
Primeiros passos que fossem, ou segundos passos, não importa.
O que importa mesmo são as diversas fitas gravadas dessa história que a gente costuma colocar o título de família, de domingos, de datas, ou de qualquer outra coisa que se enquadre nessa categoria substantiva, ou adjetiva de situações.
Hoje, neste exato mês de junho, esses recortes são vídeos em fitas já velhas, de videocassete, esse aparelho que um dia foi tecnologia de ponta e que agora já quase nem existe mais.
Mas as histórias permanecem impressas, mesmo que em gavetas, com as etiquetas escritas uma, duas, três, mil vezes, de uma mesma fita gravada e regravada.
Escritas e etiquetadas, rabiscadas, inconfundíveis com uma das letra de médico mais legíveis que eu já conheci.
As histórias permanecem impressas, mesmo que o videocassete não funcione tão bem como antes, mesmo que as projeções sejam hoje motivo de, igualmente inesquecíves, gargalhadas nas mesmas cenas familiares, de domingo, de datas, ou de qualquer outra coisa que se enquadre nessa categoria substantiva, ou adjetiva de situações.
Dia desses, depois de abraçar meu pai pela voz e pelas palavras de boa noite, eu me parei pensando que tudo isso deveria ter sido o contrário.
Deveria eu ter gravado, desde pequeno, as suas palavras, os seus passos, as suas cenas cotidianas.
Deveria eu ter hoje as fitas guardadas, já velhas e desgastadas, os recortes de sua história.
Deveria eu poder escutar mais uma vez cada uma dessas sábias conversas, sempre nas mesmas cenas familiares, de domingo, de datas, ou de qualquer outra coisa que se enquadre nessa categoria substantiva, ou adjetiva de situações.
Hoje, eu queria rever alguns desses trechos.
Hoje, eu queria rever alguns desses “passo-a-passo-de-como-chegar”, que ele sabe tão bem.
Hoje, eu queria ter colecionado esses pedaços de domingos em fitas de videocassete, para tê-las, sempre, ao alcance das mãos, a alcance de minha memória.
Queria eu ter gravado em video as histórias de meu pai.
De longe - e especificamente neste caso longe é sinônimo de perto - , olho e vejo se é possível.
Me assusto com o caminho.
Me encorajo com o exemplo.
Ainda falta. Muito que falta.

Valei-me, meu Santo Antônio; valei-me.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Inquietude, inquietude, inquietude.
Clichê de meia-noite.
Uma vontade de gritar, mas uma vontade de gritar para ninguém.
O silêncio covarde de minha inércia.
Era só o silêncio.
E o fim de.
Inquieto eu, de tão quieto que estou.
Em silêncio pareço-me mais comigo mesmo.
Falando me assusto.
Talvez porque assim me mostro.
Carne viva.
Viva.
Isso é imprescindível.
Hoje, me meti em um saco plástico para respirar meu próprio ar.
Ar de mim.
Oxigênio velho, já respirado.
Gás.
Difícil concatenação de minhas partículas em estado gasoso.
Fluido.
Volátil.
Vento querendo voar em seu próprio vento.
Sopro querendo soprar o seu próprio sopro.
Quando a gente acha que encontrou, é a vida pedindo para buscarmos além.
É uma gota que inunda o rio.
Já faz algum tempo que não venho aqui.
Deixar impressões de uns dias que tenho vivido.
Talvez por falta de tempo.
Mas isso é desculpa besta de gente que não consegue administrar seus múltiplos tentáculos pós-modernos.

[…]

É mais fácil abraçar só seu mundo.
Tenta abraçar mundo inteiro, não.
Tenta não, que te faltará tempo.
E te faltarão forças.
Abraça só seu mundo. E só.
Amplia suas esquinas à medida de cada passo seu.
Nem mais, nem menos.
Só o ritmo de um, depois doutro, de um, depois doutro.
Tenta ser maior que seu abraço, não.
Assim a gente sofre.
Tenta abraçar só aquilo que circunscreve seu mundo.
Só o que te toca, o que te alcança, só o que é seu.

E não é que a gente tem que ser rasteiro, não.
Isso, nunca.
Só falo mesmo prá poder não sofrer.
Só falo mesmo para buscar além, na justa medida em que o além se faz acessível.
Sofre, não.
Tudo tem seu dia.
Tudo tem sua medida.

É como se a vida fosse semente.
Tem um dia que ela aparece vestida de árvore.
E aí, a partir daí, é só a nobreza da sombra.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Se bem que eu ando investindo em boas coisas.
Se bem que eu ando investindo em bons pretextos para a felicidade.

Tenho aprendido, dentre muitas outras coisas, que ela, a bendita felicidade, de tímida não tem nada, não.
Mas, por via das dúvidas, não custa convidar: assim, ela se sente mais à vontade.

Dia desses mandei embrulhar todas as cores possíveis.
Queria levar pra casa – faz parte da profissão [graças à Deus].
Deve ser que daí surgiu a cromoterapia.
Acho que cromoterapia devia ser matéria de escola, igual geografia, história e matemática.
Mas eu digo cromoterapia de todas as cores.
Todas as cores mesmo.
Fazia muito tempo que eu andava querendo comprar as famosas cores.
Pois, bem, tudo na vida tem seu tempo – já dizia a mãe de todo mundo…
E eis que chegou a minha hora.
Foi numa feira na Alemanha.
Comprei as cores e percebi que toda gente deveria fazer o mesmo.

[…]

E, para as cores, basta criar poros nas nossas janelas: e elas caminham até bem perto.
Tão perto, que chegam a fazer parte da gente.


E uma coisa tem tudo a ver com a outra.
Se bem que ela, a bendita da felicidade, não é tímida; isso não é não.

Mas, em todo caso, a gente convida prá que ela fique bem à vontade e não se esqueça de vir sempre tomar um café.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Buscar sentido.
Isso tem me perseguido.
Durmo mais um sonho do qual não me lembro.
Sonhos que não nascem.
Somente são retratos de meus dias vazios.
Meus textos são pura melancolia de capricorniano.
Recheio de minhas latas de coca cola.
Tempo perdido.
Tempo ganhado.
Caro, tempo.
Mesmas palavras.
Mesmo sentimento.

Hoje amanheci querendo voltar.

Não, não é por vontade.
Não, não é voluntário.
É pura consequência.

Não é uma questão de dias, nem de horas.
Não é uma questão de porquês.
Não é uma questão de humor, nem de personalidade.
É pura questão de sentir.

Primeiro filho, menor que o menor.
Mais pequeno, mais tímido, mais cru.
Mais incompleto, mais inseguro, mais por fazer.

No fim, o dia começa a chover.
E mancha o que pintei.
Expande a tinta no tecido que estampei.
Não seca a roupa.
Umedece entranhas.
Força entradas.
Inibe saídas.
Recolho.
Tímido, mais tímido que costumo ser, diante das consequências de minhas escolhas.
Pesa o peso.
Pesam as medidas.
Estou parado há meses.
Evoluindo por dentro, quando o que vale é o que parece ser.
Distancio.
Justifico fatos.
Repenso histórias já contadas.
Remonto.
Recolho.
É um visgo espesso que não sai com meus banhos.
É uma roupa que não consigo tirar e com a qual tenho que dormir, até que se desfaça com o tempo que tudo lava.

Desejo o que não tenho.
Mãos curtas.
Pensamento: caos.
Recolho.
Um espaço de tempo.
Mais uma dessas muitas: mais uma reflexão tempo-espacial.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Quando o coração aperta, deve ser que está cheio demais.
Falta espaço, deve.
Acho que é isso.
Coração lota feito ônibus em horário de rush, em dia de chuva.
E acaba apertando um punhado de gente que viaja, de parada a outra.
Nunca vi tão cheio.
Desarrumado, bagunça de meus velhos CDs.
Melodias conhecidas, poesias decoradas, dias meus.

Amanheci que chovia.
Fazia frio dentro de mim.
Previsão de um tempo: meteorologia.
Já diziam os meus velhos CDs.
Falta de ordem em um espaço mínimo, mas infinito, pela beleza da contradição.
Antíteses dos dias meus.

Sim, amanheci que chovia.
Cheio de goteiras.
Teto de vidro, bota sete léguas, capa de chuva, ventilador, janelas abertas.
Espelho dos dias meus.

Ônibus lotado.
Coração apertado feito nó de escoteiro.
Dias, dias.
Retrato de uma máquina de retratos.
Anotações, vontades cantadas em meu fone de ouvido.

Sei não.
Sei de nada não.
Sexta feira, 22H36.
O dia amanhece quando chega o trem.
Assim é o amor.