Daqui há dois dias farão dois meses que comecei a trabalhar nesta ilha, que tem cara de paraíso, e que tem QUASE tudo para ser um paraíso de fato.
Pedir sol é demais. Aí, seria o paraíso e, se nem Adão e Eva foram merecedores dele, quem dirá eu, pobre mortal, tentando entender como é que se faz FUN design! [FUN, do ingês = divertido]. Essa talvez seja uma das muitas coisas que eu nunca fiz na vida e que hoje às vezes me fazem questionar se um dia saberei ou conseguirei fazer bem feito.
Entre dúvidas e questões, a certeza de ter feito mais uma grande escolha.
Aos 26, duas graduações, uma especialização iniciada e não acabada, um mestrado, quase dois anos de docência e e a vida em dois países e em quatro cidades distintas: acho que isso deve servir para alguma coisa.
E acho que, neste caso, serviu exatamente para me dar coragem de assumir todos os riscos que assumi abrindo mão de tudo e vindo me aportar aqui.
De fato, uma reviravolta absoluta em todos os sentidos. De Barcelona, com aquele jeito de cidade fervilhante com cara de metrópole, para Florianópolis, com esse ar hippie-chic de quem curte a vida sem se preocupar com muita coisa, sendo uma mini-cidade do interior.
Tudo mudou.
Mas agora eu já tenho minha casa, que tinha tudo para ser uma casa de praia, mas, segue a mesma lógica do paraíso: é QUASE, sem chegar a ser.
Nela, tem uma quase TV, que de tão pequena é uma televisinha, e não uma televisão. Tem também uma geladeira marrom, que combina com as gavetas de fórmica marrom da cozinha e uma cama na sala que é um projeto de sofá. Nela também tem TV a cabo, Internet banda larga, telefone fixo e ventilador. Aquisições importantes para transformar a vida na ilha em uma vida mais próxima do que ela quer ser: uma vida no paraíso.
No pátio comum do condomínio, alguns gatos às vezes barulhentos e uma vizinhança que sempre consegue fazer muito mais barulho que os gatos.
Sobre o tema vizinhança, admito que ganhei uma vizinha bem querida e um vizinho amigo que mora de frente para o condomínio, com sua namorada argentina.
Ele e a primeira vizinha, mineiros, como eu. Desconfiados como eu. Amigos como eu.
Ainda sobre o condomínio, é bom lembrar que meu Celta preto dorme no alento, vivendo a chuva e esperando o sol que aqui, consegue ser mais tímido do que eu.
Espero que nós dois consigamos ser mais desinibidos e estar mais à vontade: pequenos desafios cotidianos.
E, por falar em Celta preto, foi ele quem me trouxe até aqui e é ele quem encurta todas as enormes distâncias entre centro e Lagoa e praias e Lagoa, lugar onde eu habito.
Apesar de tamanhas distâncias entre cada ponto da ilha que é imensa, tenho o privilégio de ir a pé para o trabalho. Coisas para poucos. Nesse aspecto, o fator paraíso ganha pontos: qualidade de vida é imprescindível.
Além disso, caminho até o centro da Lagoa, onde compro pequenas urgências nos supermercados para turistas, vou à lavanderia, correios e retaurantes onde também costumo almoçar. Em alguns deles, já sou chamado pelo nome e conhecido de alguns funcionários - pequenas delicadezas de uma cidade pequena.
Também já consigo caminhar e reconhecer algumas ruas sem me perder, por mais que se perder seja a melhor [ou talvez a única!] maneira de se encontrar.
Apesar de toda a traquilidade de uma vida como esta, concordo em gênero, número e grau: falta o ar e as atividades de metrópole que acabam dando espaço aos muitos “planos Bs” que podem um dia virar primeiros planos.
Ainda sobre distâncias, viver na ilha me trouxe para muito mais longe das pessoas que amo. Isso tem dificultado muita coisa: a ilha é longe, muito mais longe do que a gente imagina. E às vezes, acho que só quem está aqui consegue mensurar o tamanho desta distância toda, estando ainda num mesmo país.
Por aqui, o trabalho é intenso [às vezes tenso!] e a cabeça acaba trabalhando incansavelmente, ignorando o fato de que um dia alguém estabeleceu que a noite foi feita para o nosso descanso.
Ainda não entendi a lógica da empresa que me emprega, por mais que em alguns raros momentos de lucidez eu tenha a absoluta certeza de que essa lógica que eu tento entender não existe.
Lá, da varanda da nossa sala de trabalho, posso ver o sol quando ele vem.
Nesses dias, as praias convidam para um fim de tarde ou para um dia inteiro, mas lembro: vivo em um QUASE paraíso, e isso nem sempre acontece: afinal, nem sempre quando tem praia tem sol. E nem sempre quando tem sol tem praia.
Eu já entendi que o sol costuma dar o ar da graça geralmente às terças e quartas. E isso inviabiliza parte do processo - e ele acaba virando bela paisagem da nossa sala de trabalho, de onde se pode, inclusive, ouvir as cabras vizinhas entoando berros felizes ao longo do nosso dia [pequenos pormenores de uma vida tranquila na ilha: somos vizinhos de uma pequena criação de cabras e seus filhotes cabritinhos].
Além das cabras, os cachorros são muitos pela Lagoa. Mas, mais, muito mais numerosos que eles, são os pernilongos e as histórias de minha chefe. Tenho dúvidas do que são mais abundandes. Sobre o incômodo que causam, acho que os pernilongos são piores. Se bem que os ruídos das histórias da minha chefe são bem recorrentes, repetitivos, agudos e às vezes tão irritantes quanto o zumbido dos pernilongos. Mas, ainda assim, confesso que alimento uma simpatia por ela [e não acho que a recíproca seja exatamente verdadeira]. E, em relação aos pernilongos, também não tenho [pelo menos até agora nunca tive!] nenhum desejo impetuoso de exterminá-la com a raquete elétrica de matar pernilongos de minha querida vizinha. Portanto, entre os pernilongos e as histórias trágicas de minha chefe, eu fico com as histórias.
Não posso dizer que faltam amigos. Talvez o que faltem sejam círculos de amizade, distintos do trabalho: sem amigos fora dele, ele acaba virando tema recorrente até nas mesas de bar, e não há quem aguente tanta lavagem cerebral...
Tenho tentado fazer coisas diferentes das que usualmente faria, ir a lugares onde eu provavelmente não iria, somente para tentar entender a lógica da ilha e dessa gente que vive por aqui.
Os gaúchos são mesmo muito convencidos e cheios de si [a minha chefe e seu marido são gacúchos!].
Mas isso faz parte, vem no pacote de viver no QUASE paraíso.
A vida ainda não é de praia. Recorro ao tema "praia", porque é impossível fugir dele - talvez este seja o maior atrativo da vida na ilha.
Ainda assim, eu posso abraçar a Lagoa, que tem cara de mar e isso alimenta a alma.
Ainda não vivi um inverno, mas já prevejo tempo cinza.
Tomara que eu esteja errado, e que a previsão seja sempre de tempo bom.
Até agora, as promessas de programas memoráveis acompanham os dias repletos de gente querida.
E isso também tem feito valer muito a pena.
No geral, mais descobertas que dúvidas.
Acho que pode ser esse um saldo parcial no placar do jogo que ainda está em fase de aquecimento.
Aquecimento em todos os sentidos.
E, nesse mesmo sentido, mais uma vez, repito: espero mesmo que o clima não esfrie e que chegue logo o verão.
[Escrito em 04/12/2008]
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
domingo, 7 de dezembro de 2008
Não escrevo faz muito tempo.
A caixa de e-mails está lotada, cheia de e-mails sem respostas.
Tem faltado tempo para muita coisa.
O trabalho está uma loucura e esta semana especialmente foi atípica.
Trabalhamos todos os dias madrugada afora.
Mas isso também não é uma maneira de justificar nada.
É só uma maneira de começar a te dizer um pouquinho de como tudo anda por aqui.
A chuva está fazendo estragos.
Com quase tudo, eu diria.
E a gente acaba ficando mais introspectivo, pelo simples fato de mal poder sair de casa.
Nos dois meses aqui, só dois dias de sol.
Isso também diz muita coisa.
A adaptação tem sido difícil, misturando solidão, saudade e dificuldades que eu não esperava encontrar.
Mas, se a alma não é pequena, tudo vale.
O aprendizado tem sido enorme. Dias mais, dias menos.
A vida na ilha é tranquila - mais tranquila do que o necessário, eu diria.
Faltam coisas acontecendo, afinal de contas, estamos ilhados.
Mas aí, é só girar a cabeça e dar uma olhada ao redor para me inspirar na Lagoa, no mar que de tão perto, quase posso escutar.
Ele passou a ser meu vizinho, apesar de quase nunca poder ir visitá-lo.
Todas as experências parecem ser novas demais para serem avaliadas com propriedade.
Sinto que comecei do zero. Sinto que cada dia sinto que sei menos e que posso aprender mais.
E a gente, nessa história de começar num lugar novo, num trabalho novo, com pessoas novas, numa cidade nova, numa casa nova, com uma cama nova e novos cheiros, acaba tendo que nascer de novo também - acaba tendo que aprender a caminhar aos poucos, engatinhando e caindo. Acaba tendo que aprender a falar uma nova língua, gaguejando e falando errado, até ter segurança de se pronunciar em público.
Tenho me sentido assim, meio criança com todos os seus medos mais absolutos e legítimos.
Depois de muitos dias, eu pude descansar.
Descansar e escrever.
[Escrito há alguns dias, na última semana, que agora já passou.]
A caixa de e-mails está lotada, cheia de e-mails sem respostas.
Tem faltado tempo para muita coisa.
O trabalho está uma loucura e esta semana especialmente foi atípica.
Trabalhamos todos os dias madrugada afora.
Mas isso também não é uma maneira de justificar nada.
É só uma maneira de começar a te dizer um pouquinho de como tudo anda por aqui.
A chuva está fazendo estragos.
Com quase tudo, eu diria.
E a gente acaba ficando mais introspectivo, pelo simples fato de mal poder sair de casa.
Nos dois meses aqui, só dois dias de sol.
Isso também diz muita coisa.
A adaptação tem sido difícil, misturando solidão, saudade e dificuldades que eu não esperava encontrar.
Mas, se a alma não é pequena, tudo vale.
O aprendizado tem sido enorme. Dias mais, dias menos.
A vida na ilha é tranquila - mais tranquila do que o necessário, eu diria.
Faltam coisas acontecendo, afinal de contas, estamos ilhados.
Mas aí, é só girar a cabeça e dar uma olhada ao redor para me inspirar na Lagoa, no mar que de tão perto, quase posso escutar.
Ele passou a ser meu vizinho, apesar de quase nunca poder ir visitá-lo.
Todas as experências parecem ser novas demais para serem avaliadas com propriedade.
Sinto que comecei do zero. Sinto que cada dia sinto que sei menos e que posso aprender mais.
E a gente, nessa história de começar num lugar novo, num trabalho novo, com pessoas novas, numa cidade nova, numa casa nova, com uma cama nova e novos cheiros, acaba tendo que nascer de novo também - acaba tendo que aprender a caminhar aos poucos, engatinhando e caindo. Acaba tendo que aprender a falar uma nova língua, gaguejando e falando errado, até ter segurança de se pronunciar em público.
Tenho me sentido assim, meio criança com todos os seus medos mais absolutos e legítimos.
Depois de muitos dias, eu pude descansar.
Descansar e escrever.
[Escrito há alguns dias, na última semana, que agora já passou.]
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