domingo, 23 de agosto de 2009

Sempre é um lugar que a gente constrói.
Para sempre é um tempo que a gente inventa.
Cabe a nós.
Mudar.
O nosso.
Cabe a nós.
Dar a chance.
Ao destino.
Quantos anos você quer ter agora?
O tempo é a gente que desenha.
A coragem é a gente que sopra.
Mas só a gente pode cosntruir o que vai ser.
Para nós.
E para sempre.
Se o sempre existir.
Dentro de nós.
O que vale?
Então.
Vale o sempre.
Vale a chance que a gente dá ao destino.
Vale a medida que a gente põe nas coisas.
Vale o que a gente vai levar da vida.

[Escrito um dia, numa noite: 28.05.07; 01H25]
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia.
E se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

[Fernando Pessoa; um presente pra mim]

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

10 meses na ilha.
Da magia.
Hoje, posso dizer com propriedade.

No fim das contas, estar aqui, em um lugar onde eu nem imaginava estar quando comecei a escrever este livro de páginas que não existem, tem me feito bem.
Aqui eu tenho aprendido a calar ainda mais alguns de meus impulsos, e a falar um pouco mais alguns de meus silêncios.
Aqui tenho aprendido a ter chefe e a dizer : "sim", por mais que meu coração insista em dizer não.
E coração nem sempre é passional - às vezes se mete a besta e acha que tem razão. E não é que é verdade?
Aqui, na ilha onde tudo é longe de tudo e eu sou longe de tudo junto com ela, eu procurei e achei uma casa que me fizesse sentir de novo em um lugar meu.
Aqui, aprendi a baixar músicas pela Internet - e isso muda algumas coisas na vida da gente.
Aqui na ilha, eu iventei que queria aprender a tocar percussão - isso quer dizer: fazer barulho de alguma forma [me pergunto se isso pode ser sintomático...].
Comecei do começo, e agora já ensaio uns batuques que talvez queiram dizer alguma coisa, por mais que sejam incompreensíveis.
Comprei pandeiro e tamborim. Agora, já arrisco tocar tambor: amanhã tenho ensaio de um número de maracatu com música eletrônica, coisa linda que a ilha tem me dado de presente. Ousadias estranhas, permito-me, sem achar que isso seja perda de tempo, vergonha ou qualquer sentimento do gênero.
Até onde isso vai, sei não.
Sei que já consigo entender um beabá pouco de partitura, por mais que o desenho delas me atraia mais que o sgnificado de cada nota.
Partituras são como fios de luz na estrada...
Basta abrir o vidro do carro, deixar o vento correr pelo cabelo da gente, e viajar na canção que eles querem dizer, ainda que a gente não entenda o que dizem ao pé da letra.
E, com o vento e os fios de luz que passam como o rodar das rodas, o braço ensaia uma dancinha dessas que a gente só improvisa na estrada, viajando, vendo os fios pretos subirem e descerem, em harmonia, ritmo, compassos que o coração mais sente do que compreende.
O contexto é que faz sentido, lá no fundo de tudo.

Essa minha casa aqui, que já é a terceira casa em um tempo que se arrasta e contraditoriamente voa, é casa na rua, velha e serena. Sem muro, sem uma barreira aparente entre o meu mundo e o mundo de todas as pessoas, gatos e cachorros que habitam e povoam o mundo além do meu. Aqui, tenho vizinhos. Tenho janelas, grama, rede na varanda, quintal e cortinas baratas. Tenho caixas de feira que inventaram moda quiseram ser armário, tenho cozinha grande e varal que conversa com o sol.
A chuva vem sempre dar seu ar da graça e o vento que assuta as roupas curtas de banho também.
Faz frio na Ilha da Magia.
Faz sol e faz frio, chove e faz calor.
Instabilidades e incosntâncias frequentes de um pedaço de terra cercado de água.
Digo: ilha deve mesmo viver rodeada de questões, sem saber ser-se terra firme ou mar.
Penso que ser os dois deve mesmo ser bem difícil. E às vezes, confesso: me sinto assim.

Ainda sobre a casa, de varal no tempo e garagem coberta, arrumo meus cantos aos poucos, como se saboreasse um bolo recém saído do forno: pedaço por pedaço - por pura cautela e prazer.

Sobre a ilha, sobre os dez meses vivendo aqui; sobre a saudades que sinto, da Espanha, da minha casa e as minhas ruas no velho mundo; sobre Belo Horizonte, sobre meu apartamento e minhas histórias nesse mundo que foi tão meu; sobre Montes Claros, jardim que eu aprendi a cuidar e onde estão as raízes de minha copa; eu penso ser assim: estrada. Estrada e música. Estrada e música; e dia e noite; e sol e lua; e calor e chuva; e passos e palavras.
Penso mesmo ser assim: a saudade é essa ponte, essa ação que dá significado ao sujeito, esse artigo definido que qualifica e determina gêneros e números. A saudade é esse trânsito entre o tempo de agora e qualquer outro tempo que a gente acredita ser real.

Parece até que às vezes a saudade é o molde do presente, o sentido da estrada, a seta que indica o caminho: de ida, e de volta, principalmente.
Penso: estrada e música, e tudo mais que couber nesses dois substantivos.
Aqui, nesses dez meses, em qualquer outro tempo, onde for, no tempo da vida inteira.

domingo, 9 de agosto de 2009

Às 18H anoitece na ilha.
Ainda estamos no inverno.
Uns dias mais, outros menos.
Domingo tem cara de contagem regressiva.
Talvez por isso tenha seus momentos particulares de angústia e de página em branco.

A sexta feira foi de lições: em algum momento, ou a gente para, ou a vida se encarrega de fazê-lo por nós.
Entre dúvidas do tipo "o que é mesmo que eu estou fazendo aqui?", a certeza de que o estar longe é muito maior e muito mais longe do que se imagina. Isso aumenta os centímetros da saudade.

Domingo tem cara de retrospectiva e de promessas.
Domingo tem cara de conversa com a gente mesmo e com quem a gente sabe que sabe da gente.
Domingo é dia de novos pregos na parede, de comidinha feita em casa, mesmo que seja pra ser um almoço de uma pessoa só.
Domingo tem cara de reticências, porque não basta a si mesmo.
É resumo e conclusão do que já foi e é introdução do que ainda vai ser.

Escuto: "bons ventos para nós".
Venham todos.
Apesar de ser domingo, ainda há a vida e o céu para compreender, repartir, entender, aceitar.
Noites lindas anoitecem na ilha.
No inverno em que o céu resiste a estar limpo de nuvens, em que as meias passeiam pelo chão frio da casa, em que as roupas custam a secar no varal, em que o amor pede pra estar mais aceso.

Talvez seja isso.
É preciso aprender que tudo que foi, não foi nada.
Importante mesmo é o que ainda vai ser.
"Um dia depois do outro.
Domir 8 horas.
Acordar no horário.
Nao esquecer do check-list de sonhos. Nem do das obrigações.
Comer salada, peixe, camarão.
E chocolate e coca-cola.
Costuma funcionar.
Eu acredito no cotidiano."

Mais um desse presentes que a gente ganha, veste, usa, guarda, lava, leva pra viagem, lembra, usa mais uma vez e nunca se esquece...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

E aí, eu digo:

Às vezes, dá vontade de segurar os ponteiros que medem as horas e dizer pra os ouvidos do tempo: "pára e me escuta!"
E aproveitar esse segundo de hiato de nossas correrias que atropelam até a saudade que a gente sente, pegar o carrinho preto, sair por aí, atravessar o mar, colar com fita crepe asas de papagaio nele, fazê-lo voar, caminhar à pé e bater na sua porta.
Depois de chegar, posso com alívio soltar os ponteiros presos por minha mão de unhas roídas. Agora, sim: eles podem continuar a caminhar.
E eu estarei confortável, no abraço, na presença.
E tranquilo, por estar bem perto.

Saudade do mínimo.
Da menor de todas as coisas.
"Desperdiçar momentos.
Às vezes tá tão perto da gente. Tão fácil de falar, e - deixa pra daqui a pouco.
O tempo passa,o momento vai.
Não! Não posso deixar de falar!
Nem de olhar pro horizonte. Lá do alto, onde o céu encosta no cume das montanhas.
Parar num botequinho de estrada, poeirento e entulhado. Pedir aquela cachacinha - água ardente descendo goela abaixo, arrepia o costado. - Os panos que enrolam os queijos. A lingüiça seca pendurada. – Me dá um pedaço pra tira-gosto?
Chegar de sopetão na casa da tia, lenha estalando no fogão. Destampar as panelas e sentir aquele vapor, cheiroso, entrando nariz adentro!!!
O cafezinho e um cigarro na varanda.
Andar pelas trilhas, chutando pedrinhas. Uma flor aqui ali, uma folhagem diferente lá. E as árvores, que fazem a sombra refrescante para estes passos.
Olhar o céu e ver as nuvens: caras, bichos e - viajar.
É. Ta na hora de tomar uma atitude."

[De presente pra mim, ontem.]