O tempo passa como se não houvessem parâmetros.
Estar longe deveria fazê-lo andar mais devagar.
Mas não.
Inversamente, anda mais ligeiro.
Rápido.
Corre.
Urge.
E eu insisto em dizer não.
Eu insisto em encontrar o que busco, sem buscá-lo, de fato.
Insisto em pedir ao tempo que ande com mais calma.
Com mais cautela, com mais prudência.
Mas não.
Ele insiste em reforçar minhas manias, meus vícios de um tempo largo sem diligências ou burocracias.
Eu pedi ao tempo, mas ele não quis saber.
Não quis saber do que eu vim fazer aqui, do que eu vim buscar em meio aos meus cadernos desenhados, aos meus e-mails que insistem em preencher algum tempo que me sobra.
Me sobra diante de tudo que me falta.
E o que me falta, me falta tanto, que me sobra.
Sobra a falta.
E isso é muito relevante.
É quase imperativo.
Permissões ou possibilidades.
Imposições ou escolhas.
E eu não sei bem o que é que a gente faz com o tempo, quando o tempo é surdo-mudo.
E eu não sei bem o que é que a gente faz com o tempo, quando o tempo é egoísta.
E, de egoísmo eu aprendi um montão.
Aprendi a dormir só para mim.
Só para saber o prazer da pirraça.
Aprendi só pelo prazer da culpa.
E depois, a ressaca do tempo que não volta.
Maldade do tempo que já é ontem, quando mal se sabe que já começou, há muitas horas, o amanhã.
E isso, na verdade, é uma besta análise sobre o que é agora.
Essa confusão toda de tempo tem deixado meus ponteiros tontos de álcool.
Tontos de alegria. Que, espero eu, sejam sólidas de felicidade.
Uma coisa eu sei.
Isso vai durar para sempre.
Em cadernos, em páginas, em palavras e em memórias.
Em fotografias, que são incontáveis.
Mas eu queria mesmo era entender o que passa com o tempo que passa.
Difícil isso de aceitar o passo do tempo.
E os passos do tempo…
Aceitar que já se foi mais da metade.
De um século, de uma vida dividida na metade, de uma viagem que era para ser vida – e acabou sendo mesmo uma viagem.
Eu queria saber como a gente pode fazer para uma viagem se transformar em vida.
Pela primeira vez, talvez, eu esteja vivendo alguma mudança sem sofrer.
E estou buscando os furos do queijo que eu mesmo como.
Engraçado é isso do tempo.
Enche as coisas de marcas e de nódoa, mas, no meu caso, parece é que ele lava.
Eu queria mesmo era saber como é mesmo isso do tempo.
É porque eu resolvi viver.
E vi que não conseguia nada muito além de viajar.
Vai ver que é que meu lugar não está plantado aqui.
Engraçado isso de plantar-se em algum lugar.
A gente tem mania de tirar conclusão das coisas antes mesmo das próprias coisas.
A gente tem mania de querer acelerar o tempo com conlcusões precipitadas sobre as coisas que ainda vão ser coisas amanhã.
E acaba se decepcionando.
Um monte de muitas coisas e nada de muitas outras.
Meu queijo está mesmo cheio de vazios.
E não me importa.
Quero mesmo é seguir viagem.
Apesar de que minha bússola se perdeu em algum lugar desses por onde passei.
E, com ela, caiu em algum beco de poeira meu critério para saber o que pode e o que não pode ser.
Sem saber, sem ser, sem querer saber, querendo ser.
Sei não.
Sei qual é o próximo passo, não.
Só pelo prazer da covardia.
E pelo prazer da culpa.
Nem sei o que pode ser depois de tanto tempo querendo brigar com um monstro muito maior do que eu.
Vai ver que é minha mania de super herói.
O que acontece é que nessa viagem eu quis ser super herói de brinquedo.
E acho que isso também pode.
Era para ser uma vida.
E acabou virando uma viagem.
O que é que a gente faz: sei não; então.
Isso não é uma pergunta, diga-se.
É um afirmação que tem cara de pergunta.
É assim que tem sido meus dias aqui.
Afirmações com cara de pergunta.
E eu não sei o que posso fazer de fato para que isso mude.
Na verdade, nem sei se quero que isso mude.
Ou se posso mudar o que não quero que mude.
Posso então dizer que perdi meu norte, perdi meu sul, perdi meu nascente e meu poente.
Perdi também meu sim e meu não, e perdi também meu infinito.
Perdi para reconstrui-los.
Perdi para preencher as lacunas deixadas pelas perdas.
Perdi para encontrar.
Porque era para ser uma vida.
E acabou sendo mesmo uma viagem.
domingo, 25 de maio de 2008
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2 comentários:
Vida
Viagem
Tem alguma diferença?
Espaços que se esgotam
Tempos efêmeros
Acho mesmo que foi um erro de tradução
Algum erro que ainda buscamos loucamente corrigir
Acho que são a mesma coisa: vida-viagem
Nada melhor que perder a casa
Perder os caminhos
Descaminhos
Descobrir que a gente mesmo é a casa
Desenvolver habilidades de caramujo
Conter apenas tudo que é preciso dentro de si
Sim que dói não ter raízes: os humanos sofrem com isso
(já nos tinha avisado com o Pequeno Príncipe)
depois de descobrir a fugacidade do tempo
a única maneira de ser rico
é esbanjar tempo
sobrevoar o tempo
precário é uma palavra que tem me visitado
algumas raízes são essenciais
aquelas mais perto
aquelas dentro da gente
aquelas que a gente cria com vontade
aquelas que a gente aceita com carinho
assim a gente dá asas pra raízes
elas avuam em semente
olhos que se abrem
Virou tempero do meu menú.
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