quinta-feira, 19 de junho de 2008

Quando eu era bem pequeno, e até quando eu já não era tão pequeno assim, meu pai costumava gravar em vídeo as nossas cenas cotidianas, os meus passos, as minhas palavras.
Primeiros passos que fossem, ou segundos passos, não importa.
O que importa mesmo são as diversas fitas gravadas dessa história que a gente costuma colocar o título de família, de domingos, de datas, ou de qualquer outra coisa que se enquadre nessa categoria substantiva, ou adjetiva de situações.
Hoje, neste exato mês de junho, esses recortes são vídeos em fitas já velhas, de videocassete, esse aparelho que um dia foi tecnologia de ponta e que agora já quase nem existe mais.
Mas as histórias permanecem impressas, mesmo que em gavetas, com as etiquetas escritas uma, duas, três, mil vezes, de uma mesma fita gravada e regravada.
Escritas e etiquetadas, rabiscadas, inconfundíveis com uma das letra de médico mais legíveis que eu já conheci.
As histórias permanecem impressas, mesmo que o videocassete não funcione tão bem como antes, mesmo que as projeções sejam hoje motivo de, igualmente inesquecíves, gargalhadas nas mesmas cenas familiares, de domingo, de datas, ou de qualquer outra coisa que se enquadre nessa categoria substantiva, ou adjetiva de situações.
Dia desses, depois de abraçar meu pai pela voz e pelas palavras de boa noite, eu me parei pensando que tudo isso deveria ter sido o contrário.
Deveria eu ter gravado, desde pequeno, as suas palavras, os seus passos, as suas cenas cotidianas.
Deveria eu ter hoje as fitas guardadas, já velhas e desgastadas, os recortes de sua história.
Deveria eu poder escutar mais uma vez cada uma dessas sábias conversas, sempre nas mesmas cenas familiares, de domingo, de datas, ou de qualquer outra coisa que se enquadre nessa categoria substantiva, ou adjetiva de situações.
Hoje, eu queria rever alguns desses trechos.
Hoje, eu queria rever alguns desses “passo-a-passo-de-como-chegar”, que ele sabe tão bem.
Hoje, eu queria ter colecionado esses pedaços de domingos em fitas de videocassete, para tê-las, sempre, ao alcance das mãos, a alcance de minha memória.
Queria eu ter gravado em video as histórias de meu pai.
De longe - e especificamente neste caso longe é sinônimo de perto - , olho e vejo se é possível.
Me assusto com o caminho.
Me encorajo com o exemplo.
Ainda falta. Muito que falta.

Valei-me, meu Santo Antônio; valei-me.

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